Até há bem pouco tempo, o que se sabia acerca do Paganismo moderno (ou neo-paganismo) em Portugal resumia-se a suposições. Quem são os pagãos portugueses, o que entendem por Paganismo ou por comunidade pagã eram algumas das questões para as quais não havia resposta. Até que Mariana Vital e Mário Pinto decidiram fazer alguma coisa para mudar isso: em 2017, os dois investigadores da Universidade Lusófona decidiram levar a cabo o primeiro inquérito sobre Paganismo moderno em solo português, procurando “reunir as características do que o indivíduo reconhecendo-se pagão e residente em Portugal, perceciona relativamente ao conceito de Paganismo, Comunidade Pagã e Associativismo”. As informações que conseguiram reunir a partir das respostas de 139 inquiridos permitiu-lhes saber, em traços gerais, quais as principais características daqueles que se dizem pagãos e se identificam com os valores do pagãos. O inquérito, pioneiro em Portugal, pretende também ser uma porta de entrada do Paganismo numa Academia dominada pelo estudo de outros fenómenos religiosos.

Foi Mário que “desafiou” Mariana. “Ainda tenho a SMS!”, disse, virando-se para a investigadora, sentada ao seu lado num restaurante chinês no Campo Grande, onde fica a Lusófona. Enquanto ela se ria, Mário explicou que foi “no início” do ano passado, quando estava a ler alguns trabalhos — nomeadamente um estudo canadiano e uma investigação feita pela académica Melissa Harrington, da Universidade de Cumbria — “que tinham sido feitos com base em estudos feitos sobre as populações pagãs locais” que se lembrou que talvez não fosse má ideia fazer algo do género em Portugal. Até porque “nós, por cá, não sabemos nada [sobre os pagãos portugueses]” — “sabemos zero, mas especulamos muito”. Farto de ouvir dizer “os pagãos são isto, os pagãos são aquilo”, Mário decidiu fazer alguma coisa: “Então se não se sabe nada, vamos procurar saber!”

Licenciado em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico, a área de formação de Mário Pinto não está ligada às Ciências Sociais. Apesar de trabalhar há já vários anos com grupos de denominação pagã e de até já ter sido responsável por um estudo sobre o Paganismo em Portugal, no já longínquo ano de 1994, Mário não é um homem da Academia. E é aqui que “entra a parte da Mariana”. Licenciada em Ciências da Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, é atualmente aluna do Mestrado de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, área em que trabalha “sensivelmente desde 2013 ou 2014”. Coordenadora do Diálogo Interreligioso Europa da Pagan Federation International (PFI) e do Círculo Comunitário da mesma associação, trabalha com grupos associados ao Paganismo há cerca de oito anos e desde que entrou para a Lusófona que a ideia é a mesma: “Estou aqui para trabalhar o diálogo interreligioso, para fazer a paz no mundo e trazer o Paganismo para a Academia”, garante sem papas na língua, acrescentando que sempre foi “muito transparente nestas coisas”. E é por isso que sempre procurou desfiar os seus “pares” nesse sentido.

“O facto de o Paganismo não ter quase voz na Academia, significa inevitavelmente que não há investigadores a mexer no tema”, explicou Mariana Vital. Além disso, “a comunidade não se abre a isso”. “Trabalho nesta área há três, quatro aninhos e as comunidades geralmente trabalham em parceria. Quando entrei, já com o vínculo da PFI, facilitei um bocadinho isso porque posicionei a associação e pu-la, de repente, a receber emails, a ser convidada para aparecer em momentos de diálogo religioso, da harmonia interreligiosa, e por aí em diante.” Por essa razão, quando Mário a “desafiou”, Mariana Vital não pensou duas vezes: ”Vamos lá criar o Grupo de Estudos do Paganismo em Portugal!”, disse sem hesitar. “Já tinha uma vontade muito grande de fazer uma coisa mais séria. Já tinha pensado em palestras, em ciclos de conferências, mas com esta ideia do Mário consegui juntar o núcleo duro a esta minha vontade. Pegou brilhantemente.”

A formação de Mariana e a sua integração num centro de estudos académico permitiu dar ao estudo a “base consistente” necessária para avançarem. “Disse logo que não ia fazer uma coisa destas em nome próprio”, admitiu Mário Pinto. “Qualquer pessoa que olhasse para o inquérito ia perguntar: ‘Mas quem é este gajo?! Tenho mais o que fazer!’.” “E para quê? Para que é que o Mário quer saber a opinião das pessoas sobre o Paganismo?”, questionou Mariana, explicando que “não é o Mário” que quer saber, “é a Academia”. “E isto tinha também de ser muito claro. Aliás, o texto introdutório do inquérito não foi feito por mim, nem pelo Mário. Foi feito pelo Paulo Mendes Pinto.” Coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, Paulo Mendes Pinto é “muito mais conhecido” do que Mariana Vital ou Mário Pinto e, “numa rápida pesquisa, consegue-se perceber quem é que ele é e o que é que anda a fazer”. Essa foi, desde o início, uma das principais preocupações dos dois investigadores: utilizar “o máximo de referências” possíveis para poderem “assegurar às pessoas” que o inquérito “era efetivamente um estudo, que ia ter continuidade e que era feito por uma entidade séria”. Não era apenas um quiz que andava a circular nas redes sociais.

“Isto foi tudo construído partindo do princípio de que precisávamos de nos vincular a uma entidade que pudesse dar resposta a esta necessidade e que deixasse bem claro às pessoas e às associações que iam participar que não se tratava de um projeto de ensino, de formação ou pedagógico daquilo que é ser-se pagão, mas de um exercício de análise daquilo que se diz pagão”, frisou Mariana Vital, garantindo que não é a ela, a Mário ou a outro investigador qualquer que cabe “avaliar quem é pagão e quem não é”. “Cabe-nos avaliar e analisar as respostas de quem se diz pagão. Mais nada.” Enquanto exercício académico, o inquérito teve apenas como objetivo reunir a opinião de quem se diz pagão sobre o Paganismo em Portugal. E essa é, para Mário e Mariana, a “riqueza” do projeto e também a sua “salvaguarda”. “Seria muito fácil agarrar na definição de Paganismo, pôr um a, um bê e um cê nas variantes e perguntar ‘para si, o que é que é ser-se pagão?’”, mas não foi isso que os dois investigadores fizeram. “Tivemos este trabalho de 40 perguntas.”

O livro é a natureza

O inquérito “Percepção do Paganismo em Portugal” foi realizado através da plataforma de questionários do Google entre 1 de maio e 10 de junho de 2017. Ao todo, responderam às perguntas colocadas 139 pessoas, que tiveram acesso ao questionário através de organizações e instituições que se identificam com a cultura e o culto do Paganismo. A partir das suas respostas, Mariana Vital e Mário Pinto conseguiram traçar um primeiro perfil de quem se diz pagão em Portugal. “O estudo de 2017 diz que os três princípios que caracterizam o que é ser-se pagão em Portugal são: haver divindades masculinas e femininas, a natureza ser sagrada e haver uma missão de sustentabilidade da natureza, e ser-se politeísta”, valores que não surgem “necessariamente em simultâneo”, explicou a investigadora da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, acrescentando que é esta a resposta que agora costuma dar sempre que alguém lhe pede uma definição de um conjunto de crenças tão variado que se torna difícil de definir. Mas essa é, em boa verdade, a grande beleza do Paganismo: pode ser aquilo que cada um entender que é e não tem necessariamente entendido como um fenómeno estritamente religioso.

No inquérito de Mariana e Mário, mais de metade dos inquiridos admitiu que, para si, o Paganismo é “uma filosofia de vida”. Apenas 36,7% definiu Paganismo como “um termo genérico para várias religiões”. Pode parecer contraditório, mas não tem de o ser. E Mariana Vital e Mário Pinto fazem questão de se afastar de qualquer juízo de valores: “Se [essas pessoas] se dizem pagãs, não temos autoridade nenhuma para dizer o contrário”. “Se perguntarmos a esta gente toda aqui quem é que é cristão, a maioria põe o dedo no ar. Mas quais é que são realmente praticantes?”, exemplificou Mário Pinto. “São porque são. Para eles, aqueles valores fazem sentido. Existe muita gente dentro do Paganismo que entende que os valores pagãos fazem sentido para as suas vidas”, frisou. “Até há pagãos que não aceitam divindades”, acrescentou Mariana. “Só aceitam a natureza como sagrada. Isso é panteísmo. Acho que a questão aqui é se uma pessoa acredita e sente. O que interessa é que faça sentido. Não temos autoridade nenhuma — nem temos pretensão disso — para dizer que é mais ou menos válido chamar pagã a uma pessoa quando ela se considera pagã. Ela alinha-se no sistema dos valores e princípios pagãos e vive-os à sua maneira.”

Em termos de referências, os dois investigadores puderam concluir que o que caracteriza um pagão em Portugal é sobretudo “a sua visão pessoal”, isto é, “a sua relação pessoal com aquilo que é a experiência do Paganismo”. As “experiências pessoais” foram, aliás, uma das respostas mais dadas à pergunta relacionada com a procura de informação — 63% dos inquiridos classificou-as como “muito útil”. Contudo, na procura por conhecimento, são os livros que desempenham o papel principal. Mais de 80% dos inquiridos admitiu que as obras escritas foram importantes no seu caminho de descoberta da religião pagã. E isso reflete-se noutros aspetos da sua vida espiritual — quando questionados sobre a procura de informação, 75,6% classificou a “literatura especializa” como “muito útil”. Esta foi a taxa mais alta de resposta a esta pergunta. Para Mariana, estes dados mostram claramente que é dada uma grande importância ao “conhecimento que se manifesta em livros, em cultura literária e em especialistas”. “O que é muito interessante”, acrescentou a investigadora. “Há claramente uma noção de seriedade quando se fala de livros”, que servem para validar a experiência pessoal e com terceiros. Outra ideia transversal é a do culto, veneração e respeito pela natureza. “Não há noção de Paganismo sem natureza”, afirmou Mariana. “É uma das camisolas que o Paganismo veste e que mais depressa aparece — a noção de sacralização da Terra.”

Esta veneração da natureza acaba por ser uma porta de entrada para muitos. “Se encararmos a natureza como mãe, é muito fácil fazer o salto para deusa”, exemplificou a investigadora da Universidade Lusófona. Porém, isto não significa que todos os pagãos sejam panteístas. “Adoro aquela frase, que foi alguém do norte que disse: ‘Se tens uma dúvida, pergunta a uma árvore’”, disse Mariana. “A ideia é a de que o livro é a natureza. O livro é a criação. Se tiveres um problema na tua vida — humana, individual, micro —, vai à procura no macro. É isto o princípio. Significa que está tudo não só aberto a uma interpretação, como também que está tudo ligado. Há uma certa dinâmica, mas também dificulta se andarmos à procura de uma descrição fechada, de uma matiz específica, porque vemos que há várias. Isto é uma característica do Paganismo: vai-se manifestar em várias cores, que vão encontrar formas de se encaixarem umas nas outras.”