Ela andava lentamente com ares de desânimo e tristeza vestida com surrado tubinho curto, com desenhos desbotados e cintura, tão apertada que mais se parecia um saco amarrado pelo meio.

A estreita calçada esburacada da cidade, mais se parecendo com um corte num queijo de coalho, fazia Joana com ares de equilibrista de circo mambembe na sua caminhada pela vida.

Seus olhos pretinhos, que nem duas jabuticabas maduras, procurando por todos os lados o que era difícil encontrar!

Parou à distância ao ver-me caminhar pela mesma calçada esburacada da vida em sua direção e, com voz rouca e triste perguntou: “Ei, seu Zé, me dá uma moeda pra eu comprar comida... ainda não comi nada hoje...

Na pressa do dia a dia poderia ter seguido em frente. Mas desta vez diminui os passos até parar de frente para Joana e, paternalmente baixando a vista até a altura de seus olhos, terminei perguntando o óbvio: “ei menina, e você não tem família?

Ela baixou a cabeça com cabelos multicolores e ares de pura melancolia e desengano, disse que o pai era doente sem trabalhar e a mãe tinha ido embora para São Paulo. Finalizou me olhando profundamente dizendo: “tenho que sair pelas ruas prá ganhar alguma coisa para comer e ainda levar um pouquinho prá meu pai e meu irmãozinho pequeno.”

Passei a mão no bolso e lhe dei dinheiro, ela agradeceu e dando as costas seguiu na mesma passada mansa e sem rumo certo, mas, sempre desviando da buraqueira da calçada pública, únicos empecilhos da sua vida.

Conclui minha breve caminhada para meu escritório e o sentimento não me permitiu trabalhar enquanto não fizesse juízo de valor.

Joana é exemplo de uma “infância e juventude abandonada”, bem diferente da alegre “juventude transviada” dos anos sessenta e setenta.

É um universo de jovens que seguem sem rumo para serem os adultos d futuro incerto e não sabido.

Sei não, porém penso que não apenas o alimento básico é o suficiente para satisfazer os jovens de hoje. Existe, sim, um tipo de alimento invisível aos olhos e que não chega ao estômago vazio, por ser direcionado a outro importante órgão humano: o coração!

O dinheirinho que dei a Joana talvez tenha dado para silenciar o ronco da barriga faminta da menina forrando, superficialmente, as paredes enrijecidas do vazio da barriga faminta. Alimentar o coração não custa dinheiro e só depende da gente

E me pergunto o que é dar amor aqueles que nos rodeiam?

Parece até fácil responder, ao imaginarmos que a simples e fria presença física, complementada por bens materiais seria o remédio para minorar o desprezo dos carentes. Verdade cruel até porque se assim fosse, um boneco inflável ou uma estátua resolveria todas as ausências e omissões em nome do amor.

Na dificuldade de me expressar, ouso dizer que, além da presença física amar é, sobretudo, saber ouvir e compreender quem dizemos gostar partilhando das incertezas da vida com apoio, conforto, carinho, dedicação e bem querer.

Para amar precisamos tirar um pouco do que temos no coração e transplantar a quem necessita, na velocidade sem freios da vida temporária, que embarcamos ao nascer.

Assim como o palhaço do circo, que chora para fazer a meninada sorrir, a vida tem dessas coisas e, muitas vezes não enxergamos o que vemos.

 

 

Marcos Souto Maior

Advogado e Desembargador aposentado

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