Enquanto criança, de estrutura raquítica que dava para minha querida mãe Adélia contar as costelas de magro, sempre tinha remédios para combater tosse, febre, dores e, os chamados “fortificantes” para engordar.

Quando das crises de amígdalas, que ainda hoje as tenho sem problemas, a febre alta sempre era debelada pelo antibiótico e antifebril Erythra que eu reagia com grandes caretas pelo gosto azedo-amargo. Aliás, diferente era o Biotônico Fontoura de gostinho bem agradável com um toque licoroso ingerido sempre antes das refeições.

Já o xarope Tussaveto, docinho e com gosto de menta era o santo remédio da época para alívio imediato da tosse da garotada dos anos sessenta.

Argueiro nos olhos: bota Lavolho. Nariz entupido passa Vick Vaporub. Bebeu demais e comeu picado ou buchada, toma logo Chophytol para proteger o fígado. Cárie nos dentes beba Calcigenol Irradiado. Para diarréia se tomava Elixir Paregórico hoje proibido no mercado, mas se tomou à bessa...

Agora, quando me lembro do Emulsão de Scott, ou do Leite de Magnésia de Philips, aí fico arrepiado, tanto pela consistência pastosa quanto ao cheiro forte e enjoativo. E a colher de sopa vinha cheinha... Campeão de gosto ruim e efeito imediato era a dosagem de óleo de rícino com poder laxante infalível!

Algumas vezes, só tomava todos os remédios, sob ameaça de levar uma boa chinelada ou palmada!

Cresci na vida, e feliz por não me esquecer do passado. Tanto que, nesses tempos chamados modernos houve diferenças substanciais no comportamento humano.

Remédios e fortificantes, hoje, não têm mais gosto e cheiro ruim, e as temíveis injeções de Eucaliptine anticatarral, a base de óleo de eucalipto, e Linfogex anti-infeccioso doem muito menos do que o sofrimento decorrente da exploração do homem pelo homem, e a violência criminosa contra inocentes.

Como se denominar de “mundo moderno” quando a violência incontida e selvagem mata covardemente, destruindo famílias em proveito de nada?

Antigamente o homem lutava pela prevalência de um ideal de vida daí a diversidade da burguesia, capitalismo e o marxismo. Hoje a violência não se escora em qualquer ideologia ou credo, nem justificativa para tal.

Mata-se a sangue frio, sem por motivo fútil, metralhando quem aparecer pela frente. Sejam pobres, ricos, de qualquer cor, religião ou ideologias, assassinados fria e premeditadamente na fome insaciável e encolerizada do prazer de matar por matar!

E por que essa hecatombe vem acontecendo nos dias atuais?

Pela facilidade na aquisição, por vias legais ou ilegais, de modernas armas letais, criminosamente omitidas pelos poderes públicos, tradicionais parceiros do poderio econômico-financeiro das indústrias bélicas mundiais. Qualquer pessoa compra, facilmente, o tipo de arma desejada ceifando vidas indefesas.

De nada adiantará restrições legais às pessoas, algumas se escudando passar por loucos, sem haver limites rígidos à fabricação acelerada e descontrolada de temíveis armas de fogo.

Este, o xarope amargo que todos nós temos que tomar goela à dentro, sem pestanejar ou fazer careta. Até porque, o vírus da doença, matar por matar, pode levar qualquer um ser a próxima vítima, sem xarope amargo que cure a criminosa falta de segurança dos dias atuais.

Marcos Souto Maior

Advogado e Desembargador aposentado

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