Após aquele memorável atoleiro na pista de barro, bem pertinho do Palácio da Desolação, sua majestade fora avisado, pelo primeiro ministro George,  que os republicanos estariam vasculhando o emprego do dinheiro real.

Besteira, eu tenho na mão os arautos da informação e ainda não perdi um só dia de sono...” sentenciou o rei, bem debochado ao seu estilo ditatorial.

Numa segunda-feira qualquer, o monarca acordou um pouco mais tarde que de costume, sob os efeitos do popular Lexotan e os babões de plantão já o aguardavam no salão do lauto café da manhã.

Com os olhos arregalados, o rei deu um bom dia com ressaca braba e, sem a tradicional conversa matinal, ordenou que o novo garçom contratado de um dos melhores restaurantes do condado, servisse o breakfast.

Em impecável bandeja de prata reluzente, foi colocada à mesa xícara com chá “quebra pedra”, um pratinho com bolachas “quebra queixo”, e prato de mugunzá cheio pelas bordas, saindo fumaça.

“Vixe! como ousaram inventar essa porcaria para meu café matinal? E vá logo se explicando o porquê dessa idéia maluca!”

Meio sem jeito, o garçom explicou que tinha ordem do cozinheiro Walter para economizar. Resultado: chá de “quebra pedras” não custou nada. O mugunzá fora adquirido na feira da Torrelândia, por preço baixo e prazo de validade vencido. Finalmente a bolacha “quebra queixo”, dura de morrer, estava mofada...

No clima quente da desfeita ao rei, todos se adiantaram em fazer graça, mas, como não tinha Bobo da Corte nomeado, o assunto voltou com força.

O chefe da segurança real foi logo se adiantando para dizer que nomear o Bobo era assunto institucional para a vida do monarca.

Por seu turno, a ministra de turbante foi também favorável porque a despesa com um Bobo da corte era somente o salário...

O barbudo do cavanhaque fedorento também disse que os arautos da informação estavam unidos e bem pagos, sem nenhum risco.

E assim, o papo do barulho da oposição republicana em mexer nas despesas reais foi esquecido temporariamente.

Em meio à conversa mole dos bajuladores, o reizinho não se conteve: “se algum de vocês deseja ser Bobo da corte, pode tirar o cavalinho da chuva porque não vou nomear. Tenho que aparentar não gastar dinheiro real.”

A essa altura, o chá já  estava frio e o mugunzá estava uma verdadeira bucha e a bolacha quebra queixo, mais dura que um poste...

“O senhor vai se servir do cardápio, excelência?” perguntou o desavisado garçom do salário de ouro.

Enchendo o peito de ar, o monarca encarou a todos, num giro de cento e oitenta graus e desabafou: “seja preso quem inventou esse cardápio terrorista e mande o material subversivo ser jogado aos porcos.”

Foi aí que a cobra bebeu água, quando o metido motorista imperial não se conteve e bradou: “mas é danado, vão jogar o mugunzá na pocilga real e os porcos vão rejeitar e decretar greve geral.”

E a reunião azedou de vez, com o rei mandando demitir quatro auxiliares, sob o pretexto de estarem doentes, mas todos com muita saúde.

Sem nenhum clima para conversa, coube ao Chefe da Casa Imperial trazer a péssima notícia matinal, dando conta de que o Conselho das Leis recebera processo pedindo a destituição do Imperador e o barulho ficou grande.

Agora, é jogar fora cardápio e ingredientes, ficar sem Bobo da Corte e aguardar a movimentada sessão do independente Conselho das Leis. E haja leis!

 

Marcos Souto Maior

Advogado e Desembargador aposentado

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